Passou um ano da morte do Papa Francisco. A esta distância, podemos olhar a sua figura e o seu legado com mais serenidade e fazer um balanço, sem as paixões com que a sua memória continua a ser olhada. Qualquer que seja a opinião sobre o seu legado, a multidão não o esqueceu, nem dentro nem fora da Igreja. Mesmo que não tenha mudado nada de fundamental na instituição e nas normas gerais, há algo mais fundo que permanece vivo. e isso é fundamental. Vamos então falar disso que permanece e para que o seu estilo de governo chamou a nossa atenção.

A primeira dessas dimensões é a ampliação da fronteira da acção da Igreja. Podemos dizer que viveu o seu serviço do primado de Pedro, nas fronteiras da própria vida e não apenas da instituição. Ele pensou a missão da Igreja como serviço do ser humano enquanto vivente, antes de todas as outras qualidades. Todos nos lembramos da sua imagem solitária a subir a Praça de S. Pedro, nos dias sombrios do recolhimento obrigatório pelo terror dos primeiros tempos da pandemia que atingiu o mundo a partir de 2020. Essa imagem é simbólica. Ele se mostra como o defensor da vida e não como defensor da Igreja e nisso é um exemplo para políticos e para todos os que servem as nações, dedicados ao saber ou ao serviço da saúde. O seu foco foi o ser humano na sua indigência, na sua pobreza, na sua angústia existencial. A fronteira do serviço da Igreja situa-se muito além do particularismo, da fronteira política, para ordenar um mundo em que caibam todos, ordenadamente, sejam nacionais ou sejam migrantes. A sua vida de serviço foi marcante neste aspecto e, por isso, a sua memória não se apaga.

Em segundo lugar, ele viveu o ministério de Pedro como um carisma e não apenas como uma forma de institucionalização do poder na Igreja. Levou essa insistência muito longe, sempre se mostrando surpreendido pela sua eleição como servidor da fé, mais do que como clérigo, no sentido técnico do termo. As suas críticas insistentes e reiteradas ao clericalismo, à Cúria Romana, são para entender neste contexto. Ele não se viu como uma figura do poder eclesiástico, mas como um iniciador à vida em Cristo, mesmo que isso rompa com a pastoral da administração que distingue com clareza quem está dentro ou quem está ora ou na margem da instituição eclesiástica.

Em terceiro lugar, pode colocar-se a sua insistência na pastoral da misericórdia, de preferência à aplicações das leis morais ou jurídicas. As leis são importantes e ele passa por não ter alterado nenhuma lei. E, no entanto, o seu estilo abriu o serviço da Igreja a dimensões novas que estão cheias de futuro. Alguns dos seus documentos colocam as bases de uma nova forma de pensar a teologia moral, como abertura da vida das pessoas à experiência da redenção para lá das quedas e dos fracassos que acontecem à vida de quase todos. Ele não mudou a norma moral, mas iniciou a própria moral a uma forma de se pensar, a nosso ver, muito mais próxima da mente de Jesus do que de certas tradições vistas como imutáveis. O seu legado, neste capítulo fica a levedar.

Em quarto lugar, ocorre interrogarmo-nos sobre o sentido da sua insistência na sinodalidade. A nosso ver, essa insistência vai muito mais longe do que a flexibilização da vida institucional da Igreja. Não se trata apenas de insistir, e bem, sobre a partilha do poder, e do seu exercício nas dioceses e nas conferências episcopais, mas trata-se de iniciar a Igreja a não ser apenas a continuação histórica de uma fundação no passado, mas a um exercício continuo da vida actual das pessoas em Cristo, das pessoas que se experimentam como membros da nova comunidade, constituída em cada tempo na frescura sempre nova do Evangelho, que é vida e não apenas doutrina e grupo visível.

Enfim, o Papa Francisco não foi um homem perfeito. Tomou decisões discutíveis, fez escolhas discutíveis, escreveu documentos longos e perfectíveis. Ele foi um poeta, mais que um teólogo. O que não podemos dizer é que não foi um pastor marcante e memorável, sem a existência do qual a Igreja ficaria muito mais pobre e muito mais ameaçada de irrelevância.

Deja un comentario